Durante 15 anos, eu guardei um segredo.

Um segredo que me foi confiado não por pessoas, mas por Deus.
Na manhã de 12 de outubro de 2006, na capela do hospital São Gerardo em Monza, Itália, eu testemunhei algo que desafiou tudo o que aprendi em 40 anos de vida religiosa.
Meu nome é irmã Teresa Gambino, tenho 72 anos, sou irmã da Congregação das Irmãs Ursulinas da Sagrada Família.
E durante décadas trabalhei na pastoral hospitalar, cuidando de doentes, preparando velórios, consolando famílias em luto.
Organizei mais de 300 funerais, vi centenas de corpos, rezei por milhares de mortos.
Mas o funeral de Carlo Acutes foi diferente de todos, não pela comoção, embora tenha sido imensa, não pela juventude do falecido, embora 15 anos seja uma tragédia, mas pelo que aconteceu na capela, sozinha com o corpo dele às 5:37 da manhã, quando eu estava preparando-o para o velório.
Se eu te contasse que o corpo de um menino morto há 12 horas estava quente, que a pele tinha uma cor que não deveria ter, que o rosto tinha uma expressão de paz impossível em rigor mortes, e que enquanto eu limpava suas mãos, senti algo que me fez cair de joelhos, tremendo, chorando, sussurrando.
Meu Deus, o que está acontecendo aqui? Você acreditaria? Eu mesma tive medo de acreditar, por isso guardei silêncio por 15 anos, até que a igreja o beatificou.
E então percebi, Deus quer que eu fale o que eu vou te contar agora não é folclore, não é lenda, não é exagero emocional, é testemunho.
E ele começa numa ligação às 7:30 da manhã que mudou minha vida.
Eu não fazia ideia de que aquele dia me faria guardar um segredo santo por uma década e meia.
Eu nasci em Palermo, Sicília, em 1952, numa família grande, católica, tradicional.
Nove irmãos, pai pescador, mãe costureira, pobreza digna, fé simples, rosário todo dia.
Aos 18 anos, senti o chamado.
Não foi espetacular.
Não ouve voz do céu, só uma certeza tranquila, profunda, inabalável.
Deus me quer.
Entrei no convento das irmãs Ursulinas em 1970.
Fiz votos perpétuos em 1975.
Durante anos trabalhei com educação, escola católica, crianças, catequese.
Mas em 1985 fui transferida para Monza, região norte da Itália, para trabalhar na pastoral hospitalar.
Pastoral hospitalar é isso.
Você visita doentes, reza com eles, consola famílias, ministra sacramentos quando o padre não pode e prepara os mortos.
Sim, eu preparava corpos para velório, limpava, vestia, organizava, rezava.
Pode parecer macabro para quem é de fora, mas para mim sempre foi sagrado, porque cada corpo que eu tocava tinha sido templo do Espírito Santo.
Cada pessoa tinha uma história, uma alma, dignidade eterna.
Eu tratava cada corpo como se fosse Jesus no sepulcro, com reverência, com amor.
Ao longo de 21 anos até 2006, eu preparei mais de 300 corpos, velhos, jovens, crianças, bebês, cada um com sua história de dor.
E eu aprendi algo.
A morte tem uma aparência.
Rigor mortes começa entre 2 e 6 horas após a morte.
O corpo fica rígido, frio, a pele perde cor, fica acinzentada, às vezes esverdeada.
Os olhos, se não fechados imediatamente, ficam opacos, vítrios.
A boca tende a abrir.
Os músculos relaxam de forma grotesca.
Não é bonito, não é poético, é morte.
E por mais que você reze, por mais que você tenha fé na ressurreição, um corpo morto é um corpo morto.
Até o dia em que eu toquei Carlo Acutes e tudo que eu achava que sabia sobre a morte desmoronou.
Eu estava no pequeno apartamento que dividia com outras duas irmãs perto do hospital tomando café quando o telefone tocou.
Era padre Michele, capelão do hospital.
Irmã Teresa, bom dia.
Preciso de você.
Bom dia, padre.
O que houve? Temos um falecimento.
Menino de 15 anos, leucemia.
Faleceu às 6:37 desta manhã.
A família pediu velório na capela do hospital.
Você pode preparar o corpo? Meu coração apertou.
15 anos.
Claro, padre.
Qual o nome? Carlo Acutes.
Anotei o nome, desliguei.
Terminei meu café em silêncio.
Preparar o corpo de uma criança ou adolescente sempre era mais difícil.
Não tecnicamente.
Tecnicamente era igual, mas emocionalmente era devastador.
Porque você olha para aquele rosto jovem e pensa: “Ele mal começou a viver”.
Subi até o hospital, terceiro andar, ala de oncologia pediátrica.
Entrei no quarto onde o corpo estava.
A família já tinha saído temporariamente.
Tinham ido resolver documentação, cartório, papelada de óbito e lá estava ele.
Carlo estava deitado na cama hospitalar, coberto até o peito por um lençol branco, cabelo escuro, curto, rosto magro marcado pela doença, olhos fechados, morto há pouco mais de uma hora.
Aproximei-me, fiz o sinal da cruz e comecei a oração que sempre fazia.
Senhor, recebe esta alma que retorna a ti e concede a mim a graça de tratar este corpo com a reverência que merece.
Peguei minha maleta com os materiais, luvas, algodão, álcool, pente, tesoura, toalhas limpas, roupa adequada pro velório.
A família já tinha deixado terno escuro, gravata azul.
Coloquei as luvas, toquei o braço dele para avaliar o rigor mortes e planejar como posicionar o corpo e travei.
O braço estava morno, não frio, morno.
Tirei a mão confusa.
Olhei pro relógio na parede, 8 ou 5.
Ele tinha morrido às 6:37.
Uma hora e meia atrás, corpo deveria estar esfriando rapidamente.
Coloquei a mão de novo no pulso, no antebraço, no rosto, morno, não quente como vida, mas não estava frio.
Meu coração começou a bater mais rápido.
Calma, Teresa, pode ser calor do quarto.
Aquecedor ligado.
Olhei.
Não tinha aquecedor ligado.
Estava outono.
O quarto estava fresco.
Talvez o metabolismo dele ainda esteja se desligando devagar, mas isso não fazia sentido.
1 hora e meia era tempo suficiente.
Respirei fundo.
Continuei.
Fechei melhor os olhos dele.
Procedimento padrão.
Ajeitei a boca que tinha ficado levemente entreaberta e então olhei pro rosto e gelei de novo.
O rosto de Carlo tinha uma paz.
Não era relaxamento muscular postmem, não era ausência de expressão, era paz ativa.
Como explicar isso? Ele sorria, não um sorriso aberto, mas um leve, quase imperceptível curvatura dos lábios, como se ele estivesse sonhando com algo bom, como se ele tivesse acabado de ouvir uma piada interna, como se ele soubesse de algo que nós não sabíamos.
E a cor da pele? Normalmente pele de morto fica pálida, acinzentada, cerulha ao redor dos lábios e unhas.
Mas a pele dele estava rosada, não rubor de vida, mas também não palidez de morte.
Era diferente.
Eu me afastei da cama, tirei as luvas, sentei na cadeira ao lado, meu coração disparado, mãos tremendo.
O que está acontecendo? Tem corpos que são frios e tem corpos que, mesmo mortos, irradiam algo.
Eu fechei os olhos, rezei: “Senhor, eu não entendo o que está acontecendo, mas eu confio em ti.
Me guia.
” E então, clara como sino, uma voz interior, não audível, mas certa, disse: “Não tenha medo.
Apenas continua com reverência.
Ele é meu.
Eu abri os olhos, lágrimas escorrendo.
Ele é meu.
Deus estava me dizendo que aquele menino era especial.
Levantei, vesti as luvas de novo e continuei o trabalho, mas agora com mais cuidado do que nunca, como se eu estivesse preparando não um corpo qualquer, mas um santo.
Comecei a lavar o corpo com água morna e sabonete neutro, braços, peito, rosto, mãos e a cada toque eu sentia algo crescendo dentro de mim.
Não era medo, não era nojo, que às vezes acontece com corpos em decomposição, era reverência.
Eu já tinha preparado centenas de corpos, era rotina, mas aquilo não era rotina.
Cada movimento meu parecia oração, como se eu estivesse participando de um ritual sagrado que eu não entendia, mas do qual eu era parte essencial.
Quando cheguei nas mãos dele, eu parei.
As mãos de Carlo eram finas, longas, dedos de adolescente, unhas curtas, limpas, sem esmalte, sem sujeira debaixo das unhas, mãos de quem tinha vivido bem, dignamente.
Mas quando eu peguei a mão direita dele para limpar, senti um calor, não físico, espiritual, como se aquela mão, mesmo morta, ainda irradiasse algo, como se aquela mão tivesse tocado coisas santas.
E então a voz interior de novo.
Essas mãos criaram, essas mãos serviram, essas mãos apontaram pro céu.
Eu comecei a chorar baixinho.
Segurei aquela mão com as duas minhas e sussurrei: “Quem você era, Carlo? O que Deus fez em você?” E foi nesse momento que aconteceu algo que eu nunca contei para ninguém até hoje.
Enquanto eu segurava a mão dele rezando baixinho, um perfume encheu o quarto.
Não era desinfetante, não era produto de limpeza, não era remédio, era flores, mas flores frescas, rosas, talvez jasmim, algo doce, suave, celestial.
Eu olhei ao redor.
Não havia flores no quarto, nenhum vaso, nenhum buquê.
Abri a janela, achando que vinha de fora.
Não.
O cheiro estava dentro do quarto.
Vinha do corpo.
Eu larguei a mão dele assustada.
Dei três passos para trás.
Olhei para ele deitado, imóvel, morto.
E o perfume continuava intenso, real.
Isso não é possível.
Saí correndo do quarto, fui até o corredor, respirei fundo.
Não havia cheiro nenhum ali, só o hospital, álcool, remédio.
Voltei pro quarto.
O perfume estava lá.
Eu me ajoelhei no chão, tremendo, e rezei: “Senhor, o que tu queres de mim? O que tu estás me mostrando?” E a resposta veio clara que ele já está comigo e que a morte não venceu.
Tem cheiros que a ciência explica e tem cheiros que vem do céu.
Levantei, sequei as lágrimas, respirei fundo e continuei.
Vesti Carlo com o terno que a família tinha deixado.
Calça social preta, camisa branca, gravata azul escura e pedido específico da mãe.
Tênis.
Ela tinha deixado um par de tênis Converse All Star preto.
Achei estranho.
Nunca tinha vestido um morto com tênis, mas obedeci.
Calcei os tênis nele, amarrei os cadarços com cuidado e pensei: “Ele deve ter amado esses tênis”.
Depois eu descobriria que sim, que Carlo usava tênis sempre, que ele era um menino simples, que não ligava pra roupa social, que preferia jeans e tênis.
E a mãe quis que ele fosse pro céu do jeito que ele era.
Terminei de vesti-lo.
Penteei o cabelo com cuidado.
Coloquei um rosário branco entre as mãos dele.
A mãe também tinha deixado.
Ajeitei o corpo na posição final e então dei um passo para trás e olhei.
Carlo estava deitado, de terno e tênis, mãos cruzadas segurando o rosário, rosto tranquilo, quase sorrindo.
E ele estava lindo, não bonito para um morto.
Lindo como se ele não estivesse morto, como se ele estivesse dormindo, como se a qualquer momento ele fosse abrir os olhos, sorrir e dizer: “Irmã, obrigado, pode ir.
Eu tô bem”.
Eu caí de joelhos de novo, as mãos no rosto, chorando.
E pela primeira vez em 21 anos de pastoral hospitalar, eu disse em voz alta: “Senhor, eu acabei de preparar um santo e então ouvi não com os ouvidos, mas com a alma.
Sim, e o mundo ainda vai saber.
” Duas horas depois, a família Acutis retornou ao hospital.
A mãe, Antônia, o pai, Andreia, avós, tios, alguns amigos próximos.
Antônia entrou no quarto, me viu ali ao lado do corpo e desabou em lágrimas.
Ela se aproximou, tocou o rosto do filho e sussurrou: “Ele tá, ele parece que tá dormindo.
” Eu a senti sem falar.
Ela olhou para mim.
Irmã, a senhora sentiu alguma coisa? Eu travei.
Como assim, senhora? Ela hesitou.
Quando eu toquei ele agora, eu senti calor e paz, como se ele tivesse me abraçado.
Eu olhei para ela, lágrimas escorrendo.
Eu senti também, senhora.
Eu senti.
Ela me abraçou e nós duas choramos juntas.
O corpo foi transferido pra capela do hospital às 14.
Caixão simples de madeira clara, flores brancas ao redor e durante as 6 horas de velório, mais de 300 pessoas passaram por ali.
Amigos, colegas de escola, professores, gente da paróquia, gente que eu nunca tinha visto.
E todos diziam a mesma coisa.
Ele parece vivo.
Ele tá sorrindo.
Eu senti algo quando toquei ele.
Tem um cheiro de flor aqui.
De onde vem? Eu fiquei ali sentada num canto, observando tudo e rezando sem parar.
Senhor, o que tu estás fazendo? Às 18 horas, outra irmã da minha congregação, irmã Beatrice, chegou para me fazer companhia.
Ela se aproximou do caixão, rezou, tocou a mão de Carlo e então voltou para perto de mim, pálida.
Teresa, você sentiu? Senti o quê? Ela olhou ao redor para ter certeza de que ninguém estava ouvindo.
Quando eu toquei a mão dele, eu vi.
Viu o quê? Eu vi ele de pé ao lado do caixão, sorrindo, e ele disse: “Não chorem, eu tô feliz.
” Eu gelei.
Beatrice, eu sei, eu sei que parece loucura, mas eu vi Teresa.
E então ela disse algo que me fez tremer.
Esse menino é santo e Deus vai provar.
Tem visões que são imaginação e tem visões que são revelação.
Carlo foi enterrado no dia seguinte, 13 de outubro, no cemitério de Ternengo, uma pequena cidade onde a família tinha casa de campo.
Eu não fui, não era costume da pastoral hospitalar acompanhar até o cemitério, mas eu fiquei pensando nele o dia todo.
Nos dias seguintes, eu tentei voltar à rotina.
outros pacientes, outras mortes, outros preparos, mas nenhum era igual.
Nenhum tinha aquele calor, aquele perfume, aquela presença.
E eu comecei a me perguntar por Deus me mostrou isso? Por que eu, uma simples irmã, fui escolhida para testemunhar algo tão extraordinário? Rezei muito sobre isso e senti claramente que Deus me pedia.
Guarda silêncio por enquanto.
Então eu guardei.
Não contei pro padre Michele, não contei para as outras irmãs, exceto Beatrice, que também tinha visto.
Não contei para ninguém.
Guardei no coração como Maria guardava as coisas sobre Jesus.
Passei 15 anos guardando.
Em 2019, 13 anos depois da morte de Carlo, a igreja abriu o processo de beatificação e isso incluiu a esumação do corpo.
Quando li a notícia, meu coração disparou.
Eles vão ver.
Vão ver o que eu vi.
O corpo foi esumado em 23 de janeiro de 2019.
E o laudo foi divulgado semanas depois.
Corpo em estado de conservação anômala, estrutura óssea intacta, ausência de decomposição esperada, sem sinais de embalsamamento.
Eu li aquilo chorando.
Deus tinha confirmado o corpo que eu toquei em 2006, que estava morno, que cheirava a flores, que irradiava a paz, estava incorrupto.
E então eu soube, era hora de falar.
Quando Carlo foi beatificado em 10 de outubro de 2020, eu assisti pela TV chorando e senti claramente agora.
Fala agora.
Procurei o bispo da diocese, pedi audiência, contei tudo, o calor do corpo, o perfume, a paz, a voz interior, a visão da irmã Beatrice, tudo.
Ele me ouviu em silêncio.
No final disse: “Irmã Teresa, isso é um testemunho poderoso, mas você entende que pode ser investigado, questionado?” “Entendo, mas eu não posso mais ficar calada.
Deus me mandou falar.
” Ele sentiu.
Então fale e que Deus a proteja.
Dei meu testemunho formal pro Tribunal Eclesiástico.
Foi registrado, arquivado.
E agora eu conto publicamente, porque o mundo precisa saber.
Carlo Acutes não era um menino comum.
Ele era e é santo, irmão, irmã.
Se você está ouvindo isso, saiba que os santos não são lenda, não são história antiga.
Eles estão entre nós.
Eu toquei um, preparei o corpo dele, senti o calor, senti a paz, senti Deus.
E se Deus fez isso com Carlo, ele pode fazer com você.
Você pode ser santo aqui, agora, hoje.
Não precisa morrer jovem.
Não precisa fazer milagres espetaculares.
Só precisa amar Jesus intensamente, como Carlo amou.
Beato Carlo Acutes, rogai por nós, especialmente por aqueles que preparam os mortos, por aqueles que guardam segredos santos, por aqueles que testemunham o invisível.
Amém.